segunda-feira, 19 de outubro de 2020

ISSN 1983-392X

Câmara dos Deputados

de 4/2/2007 a 10/2/2007

"Uma notícia alvissareira. A Câmara dos Deputados, na tentativa de reverter sua sórdida imagem, promoveu a demissão, ontem, de 1.500 funcionários não concursados, ou seja, aqueles que são nomeados, entendendo-se como tal aqueles que, por serem amigos, amigos dos amigos ou parentes dos parlamentares, gozam as delícias de ocupar, sem merecimento, cargos remunerados com até R$ 8.000,00. A notícia, obviamente, é recorrente, já que, em outras oportunidades em que a imagem da Câmara dos Deputados estava mais suja do que pau de galinheiro, como se diz, o mesmo aconteceu para, depois, sorrateiramente, os mesmos funcionários, ou outros, voltarem a engrossar o enorme contingente de aquinhoados, até que, em uma nova necessidade se estabeleça, novamente, o rodízio com que se visa iludir a opinião pública. Feito esse primeiro corte, restaram outros tantos, mais exatamente 1.315 funcionários nas mesmas condições, que não se encontram em Brasília, mas na assim chamadas 'bases eleitorais' dos nobres parlamentares, ocupando seus escritórios particulares, prestando serviços particulares e, até, como já veio a público muitas vezes, repartindo os vencimentos que não fizeram por ganhar com seus padrinhos, os deputados que lhes arranjaram essa 'boquinha'. Ao todo, então (ao todo? será?), nossos nobres representantes contam com 2.815 funcionários, quase 3 mil pessoas, número capaz de lotar coisa de 100 ônibus com todos sentados, até porque não viajariam de pé, privilegiados que são. Esperam os deputados, com a medida, amenizar a indignação dos cidadãos, cansados de assistir a toda a sorte de espertezas e malandragens que os jornais expõem todos os dias. Tirados de cena os tais 1.500 funcionários, afastados depois os outros 1.315, mandados para casa, para que estudem e prestem o necessário concurso outros tantos milhares que ainda não apareceram, vai restar discutir o porquê de nosso parlamento necessitar de 570 parlamentares, já que poucos sabem o que devem fazer e votam de cabresto, acompanhando seus líderes, isso quando não nos propiciam aquelas deploráveis cenas de venda de seus votos e, via de conseqüência, de sua própria dignidade. Já os Senadores, são 80 para quase um terço de Estados. Todos com idênticas obrigações, nem sempre cumpridas e quase sempre sequer entendidas, sendo óbvio que um Senador por Estado é mais que suficiente, até porque, se a existência de senadores fosse proporcional à quantidade de habitantes do Estado que representam, ou deveriam representar, São Paulo, certamente deveria ter metade dos Senadores da República. Mas, não se equivoquem. Isso que tem a aparência do início de uma limpeza, do retorno à seriedade no trato da coisa pública, na verdade é meramente uma jogada política, mais uma que nos é propiciada por verdadeiros profissionais na arte de iludir. Ao contrário, é essencial que coloquemos as barbas de molho, e fiquemos atentos, principalmente à imprensa que tem maiores possibilidades que os cidadãos comuns, para o retorno das nomeações que, inevitavelmente, voltarão a inchar o batalhão de desocupados que infestam o serviço público. Aliás, considerando que há funcionários de verdade, que não são fantasmas, que prestaram concurso e exercem seus cargos, que são efetivamente necessários ao serviço público, deveria partir deles vetar essa enxurrada de contratações sem concurso e sem motivo. Mas, quem se importa se o povo brasileiro, de uma maneira geral, anseia por chegar a sua vez de, também, lograr alcançar uma 'boquinha' dessas? Diferentemente do que acontece nas gafieiras, quem está dentro não quer sair e quem está fora quer entrar."

Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL - 9/2/2007

"Há males que vem para bem, diz o conhecido provérbio. Quando apareceram os resultados das urnas, dando a Clodovil cerca de 500 mil votos, muitos acharam que se tratava de voto de protesto, mais um cacareco eleito. No entanto, o que se viu ontem na Câmara dos Deputados parece levar a outra conclusão, a de que a Câmara dos Deputados precisava de um Clodovil. Em seu primeiro discurso, surpreendeu-se Clodovil pelo comportamento dos deputados, por certo por não estar habituado a ver as deploráveis atitudes deles nas sessões, em pleno trabalho, se é que ao que fazem cabe o nome de trabalho. De fato, o que se assiste é ao mais profundo desrespeito. Ninguém se senta, não obstante cada qual tenha seu lugar para tanto, muitos falam ao telefone celular aos berros e gargalhadas, e ficam todos de pé, cumprimentando uns aos outros e, o que é mais triste, ao menos para nós que os pagamos, rindo às escâncaras, debochada e escrachadamente, sem que ninguém possa ouvir o que se passa naquela sala. A atitude de deboche dos deputados, o desinteresse pelo que acontece, ou deveria acontecer, no plenário tem sido motivo de indignação por quantos assistem a esse absurdo modo de proceder dos parlamentares, o que demonstra seu mais absoluto desprezo até pelos mais comezinhos princípios de mera educação. Mas, voltando ao primeiro discurso de Clodovil, ele interrompeu sua fala para reclamar, no microfone, da falta de atenção, e perguntou, aos circunstantes, no caso meros transeuntes, o que significava, afinal, decoro, ou a falta dele. E o resultado foi espantoso. O silêncio se fez e os trezentos e tantos 'representantes do povo' finalmente fizeram silêncio, todos a ouvir o que tinha a dizer aquele que lá estava, levado à casa por meio milhão de votos. Um aparte foi solicitado pelo deputado Paulo Maluf, eleito com quase um milhão de votos, para aplaudir Clodovil. Digam o que quiserem, mas os dois carregam quase um milhão e meio de votos, muito mais do que aquela multidão de mal educados que lá estão se arvorando em representantes do povo. Realmente, foi preciso um Clodovil para colocar ordem naquela bagunça. Talvez daqui para frente, chegue o dia em que os deputados se ocupem dos assuntos para os quais estão sendo pagos e percebam que talvez, talvez mesmo, a Câmara dos Deputados seja o local apropriado para apresentar Projetos e votar Leis de interesse público, e não uma extensão do recreio dos tempos escolares, um local de diversão, onde cada qual se entretém com o que quer, como pândegos na baderna que se instala a cada dia no parlamento. Pedindo perdão pelo trocadilho, quem lá está é um parlamentar e não para lamentar."

Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL - 9/2/2007

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