terça-feira, 20 de outubro de 2020

ISSN 1983-392X

Ronaldo Esper

de 11/2/2007 a 17/2/2007

"A migalheira Léia Silveira Beraldo, advogada em São Paulo, contestando comentário meu acerca do furto de vasos no cemitério do Araçá pelo notório estilista Ronaldo Esper, afirma que talvez eu não saiba, mas há distúrbios psíquicos que levam a pequenos furtos (Migalhas dos leitores – "Ronaldo Esper" – clique aqui). E, em abono a sua afirmação, menciona dois casos de cleptomania, informando que ambas as pessoas mencionadas se submetiam a tratamento para depressão crônica. Até aí tudo bem. Mas, como somos ambos os Silveiras, eu e a colega Léia Silveira Beraldo advogados, e a discussão desse caso está enveredando para o campo da Medicina, procurei estudar um pouco o assunto. Em primeiro lugar, quero informar à colega que é do meu conhecimento a existência de distúrbios psíquicos que levam a pequenos furtos, e quero dizer, também, que aceito sem reservas a informação de que as duas pessoas mencionadas pela colega estivessem sob tratamento para depressão crônica. Mas sei, também, que não é a depressão que leva à cleptomania, que se caracteriza pela impossibilidade de resistir ao impulso de tomar para si o que não lhe pertence. De fato, a cleptomania é uma doença em si, que a psiquiatria trata como transtorno de controle dos impulsos. Segundo Joel Renno Junior, da USP, ‘a principal hipótese é que os cleptomaníacos tenham uma disfunção ou uma diminuição da quantidade de serotonina e dopamina (neurotransmissores responsáveis pelo controle do impulso) na fenda sináptica (espaço entre um neurônio e outro)’. 'Essa disfunção' - continua o especialista - 'provoca o descontrole do impulso e, consequentemente, pode levar a quadros de ansiedade e depressão'. Ou seja, a cleptomania pode levar a um quadro de depressão, e não vice-versa. Não é o deprimido que, em razão do tratamento por antidepressivos, pratica a cleptomania, mas é o cleptomaníaco que, após o ato pode ser levado a um quadro de depressão. Até porque, a cleptomania, ou melhor, o ato cleptomaníaco, se caracteriza por uma crescente tensão antes do furto e prazer, satisfação e alívio ao cometê-lo. 'É o estímulo a essa sensação que leva essas pessoas a cometer o ato', afirma a psicóloga Nancy Erlach. Segundo ela, 'poderia se fazer uma analogia ao consumo de drogas, ou a compulsão por comida, pela sensação que essas ações proporcionam'. Em resumo, a cleptomania, o ato de furtar objetos que podem não ser necessários para uso do cleptomaníaco e nem ter valor monetário significativo, produz prazer e satisfação, em primeiro lugar. Posteriormente, pode levar à depressão e depressão se trata com antidepressivos, e não o contrário. Não se trata de pessoa que sofre depressão e, em razão disso toma antidepressivos e, por causa do medicamento é levada a um distúrbio psíquico que a faz furtar objetos, impulso esse chamado cleptomania. Vania Fortuna, psicanalista e conselheira em dependência química na clínica Psicomed, em seu artigo 'Cleptomania: compulsão social e afetiva ? quando roubar compensa', afirma que sabe-se que indivíduos acometidos pela cleptomania frequentemente apresentam outros distúrbios associados, como a depressão. E não o contrário e, muito menos, que remédios antidepressivos, tomados por deprimidos possam induzir à cleptomania. Aliás, por falar em medicamentos, o mesmo Dr. Joel Renno Junior, Doutor em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP, em seu artigo 'Cleptomania, que doença é essa?', informa que entre os medicamentos utilizados para tratar a cleptomania estão os antidepressivos serotoninérgicos. Trocando em miúdos, os cleptomaníacos costumam melhorar muito com medicamentos anti-impulsivos associados aos antidepressivos, como se pode ler no tópico 'Psiquiatria e Família', do Portal da Psiquiatria, em (clique aqui). Nesse mesmo Portal, na parte que define um a um certos transtornos psíquicos, e tratando especificamente da cleptomania, encontra-se a informação no sentido de que, 'na simulação, o indivíduo pode fingir os sintomas da cleptomania para evitar processos criminais'. Aliás, porque estamos todos falando de cleptomania e cleptomaníacos, se em momento algum o estilista alegou ser portador de tal distúrbio? O que aconteceu, segundo ele, e todos acompanharam sua prisão e as entrevistas subseqüentes, é que, em razão de perdas familiares nos últimos dois anos, passou a sofrer de depressão e, em razão disso, estava tomando medicamentos antidepressivos e que, com o efeito, de tais medicamentos, foi levado a tentar furtar os tais vasos no cemitério. E isso, pelos motivos acima, nessa seqüência, penso que não pode ter ocorrido. Mas, é só uma opinião, já que não sou médico."

Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL - 12/2/2007

"Trocando miúdos: 'popstar' que rouba tem doença. Gente do povo que rouba é marginal."

Siegfried Barbosa Caetano - 13/2/2007

"As artes retóricas estão levando o 'Caso Esper' para o terreno galhofento do 'primeiro o ovo ou a galinha ?'. O fato é que o tratamento antidepressivo libera impulsos antes sob controle - o mais grave a tendência ao suicídio. Por que não o impulso ao furto? Aliás, negado pelo acusado. Uma boa discussão na área Psiquiátrico-jurídica - preliminar ao exercício de duvidoso senso de humor ou julgamento arbitrário - será muito salutar. Por que rejeitar, a priori, que o impulso ao furto (cleptomania?) sob controle possa ser liberado pela ação dos IRS (inibidores da recaptação da serotonina)."

Alexandre de Macedo Marques - 13/2/2007

"Bem, caro migalheiro Alexandre de Macedo Marques, lamento que meu senso de humor lhe tenha parecido duvidoso. Há quem goste. Vou tentar melhorar. Mas, como não achar graça no evento, quando o próprio estilista, que já voltou ao seu programa de televisão e - graças a Deus não demonstra qualquer depressão - faz piadas acerca de vasos e cemitérios? Não vejo muita gente levando a sério o ocorrido, ridículo sobre todos os aspectos. Mas, se eu acho graça, se até o estilista, apanhado com a boca na botija, se diverte com o evento, não será o caso de todos nos divertirmos? Ninguém se divertiria se o caso fosse de um necessitado que praticasse um furto em razão de estado de necessidade. Até porque, nesses casos, todos sabemos: 'cana nele!'."

Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL - 15/2/2007

"Caro Dr. Wilson. Touché. O assunto, além de não valer uma missa (pelos defuntos), talvez, também, não valha um sorriso. Valeu por que exercitamos - pelo seu lado fino e competentemente - a arte do contraditório. Afinal nossa razão de ser e exercer, não é verdade ? Meus respeitos pelas "agudas" migalhas com que nos presenteia."

Alexandre de Macedo Marques - 15/2/2007

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