segunda-feira, 26 de outubro de 2020

ISSN 1983-392X

Células-tronco

de 8/6/2008 a 14/6/2008

"A discussão sobre as células-tronco ou embrionárias, tem seguido sem que se tenha muito conhecimento, afinal, acerca do assunto. Muito se fala a respeito, muito palpite é dado, sem que, afinal se saiba de onde vem essas células, o que deveria ter sido estudado antes mesmo de se debater que benefícios podem trazer ao ser humano. Das células-tronco passamos às embrionárias sem estudos aprofundados sobre as primeiras sequer. O STF - Supremo Tribunal Federal, em julgamento considerado histórico, acabou autorizando estudos com as células embrionárias, quando pouco se sabia sobre as células tronco, o que só veio ao conhecimento público com um furo de reportagem, como sempre de um repórter investigativo, que passou meses na floresta, correndo todo o tipo de riscos para, enfim, trazer a verdade definitiva: como nascem as células-tronco: clique aqui."

Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL - 9/6/2008

"Lamento, prezado migalheiro Dávio Antonio Prado Zarzana Júnior tê-lo decepcionado, com a simplicidade de meu comentário e com o simplismo de minha ponderação, se assim se pode chamar minha demonstração de cansaço com o assunto (Migalhas dos leitores – "Células-tronco" – clique aqui). Não sei, com certeza, a idade do colega, mas, imagino, não ser meu contemporâneo e, estar mais para a idade de um de meus filhos que aplaudiu, alegremente, a decisão do Supremo. Meu primeiro contato com uma doença chamada distrofia muscular foi quando assisti a um filme chamado 'O Óleo de Lorenzo' que, emotivo que sou, gostei muito. Até comprei uma cópia para meu acervo particular. O filme tratava de distrofia muscular de Duchenne, um tipo determinado da doença, imaginava eu o único, que ataca crianças pequenas. Nenhuma sobrevive após, no máximo, 10 ou 11 anos, e trata da luta do casal de pais, inglória, pela salvação de seu filho. Os meus, graças a Deus, pensei na ocasião, fortes e saudáveis, já mais velhos, haviam passado dos 15. Desse mal, ao menos, estávamos livres. Foi aos 20 que um deles, o que praticava esportes, tênis e squash preferencialmente, apresentou alguns problemas sobre os quais não vou aqui me alongar. Foi uma época que só a palavra 'infernal' descreve, até chegarmos ao diagnóstico de 'distrofia facioescapuloumeral', ou de Emery-Dreifuss, um outro tipo, que atinge jovens nessa idade, genética, progressiva, incurável, que transforma massa muscular em gordura, que vai dificultando os movimentos dos órgãos superiores e pode, com o tempo, chegar aos inferiores. Apesar de genética, testes de DNA foram feitos, pela Dra. Mayana Zatz, da USP, nada se encontrando nos pais. De lá para cá, ele, que provavelmente tem uma idade próxima da sua, convive com esse fantasma, e com a esperança, qualquer fio de esperança, de qualquer pesquisa, de qualquer célula, tronco ou embrionária, qualquer uma, qualquer coisa. Ele, eu e nossa família. De lá para cá, cumprimos o circuito completo, começando pelos médicos especializados, brasileiros, passando por consultar um grande número de especialistas estrangeiros (todos nos confirmando que nada existia no exterior que a Dra. Mayana Zatz não conhecesse no Brasil), fixando-nos na espera infindável, junto com os especialistas brasileiros pelas pesquisas com células, visitando, cumprindo mais todo aquele caminho esotérico que os amigos e parentes, ansiosos por ajudar, nos indicam e que à falta de opções (não custa tentar) até que, por nada restar, passamos a aguardar, como milhões de pessoas, o avanço da ciência, indignados, como tantos, com as discussões, que a nós parecem estéreis, acerca do assunto. Lin Yutang foi apenas uma menção. É claro que mais me interessou a parte em que deixou de ser cristão, e não a que foi de volta, de pagão a cristão, como descreveu em outro de seus livros. Foi apenas ilustrativo. No entretempo, sempre li, e muito, como sempre faço, desde tenra idade, pois que sou do tempo em que se lia desde criança, e não apenas 1,7 livros ao ano, como hoje. Além do mais, minha família é, e eu também, de formação católica, e desde cedo estudei em colégios religiosos (em São Paulo, o Colégio de São Bento) e tive oportunidade de ler sobre a dor e o que Deus pretende nos ensinar com ela, inclusive acerca das discussões sobre se o sofrimento não seria o grande erro de Deus. E, para dizer a verdade, após conhecer todos os argumentos, não me convenceram aqueles que nos dizem que devemos ser agradecidos por Deus ter inventado a dor, até porque não poderia Ele ter feito coisa melhor. Acho, sim, que poderia ter feito coisa melhor, muito melhor. Eu, com a dor, ou com o sofrimento, pouco aprendi, a não ser que dói e que se sofre. Mas, nada como a experiência, para aprender, de perto, na própria carne, e testar nosso aprendizado. Não pretendo, aqui, discutir religião. Há muito aprendi que religião não se discute. Eu, que no colégio católico de lá saí quase um ateu (talvez por força do mau ensino religioso dos beneditinos), acabei, depois de algumas tentativas conjugais frustradas, casando-me com uma mulher evangélica. E, fiel às minhas crenças, não discuto religião em casa, até para preservar a felicidade conjugal. Mas, quanto a esse assunto, sinto-me mais confortado agora, quando a ouço repetir que Cristo prometeu – em João 10.10 – 'Eu vim para que tenham vida e vida em abundância', que Ele se ocupa para que suas ovelhas, para que toda a coletividade, toda a criação, tenham vida e vida abundante e, é claro, com saúde. Para mim é o quanto basta. Para meu filho, esperamos, bastarão os resultados das pesquisas das células tronco e embrionárias. Se derem certo, melhor ainda. Se não derem, ao menos alguém tentou, sem interferência da religião, cientificamente. Epicuro, cuja doutrina muitas vezes é confundida com o Hedonismo, entendia que o sumo bem reside no prazer, mas o prazer do sábio, entendido como a quietude da mente e o domínio das emoções que satisfaz uma necessidade ou que aquieta a dor, que liberta o homem, sendo que o mais alto prazer reside no que chamamos de saúde. É de Epicuro o pensamento: 'Se Deus pode acabar com o mal, mas não quer, é monstruoso; se quer, mas não pode, é incapaz; se não pode, nem quer, é impotente e cruel; se pode e quer, por que não o faz?'."

Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL - 10/6/2008

"Caro colega migalheiro Wilson Silveira, quero agradecer por suas palavras reveladoras sobre sua história pessoal. Acredite, não precisava de detalhes. Se você quiser, um dia conversamos pessoalmente sobre as coisas que você mencionou, pois envolvem temas particulares que não cabem em Migalhas. Do amigo migalheiro, que sabe que algumas coisas não devem ser meramente discutidas em pequenas migalhas, principalmente quando sabemos que Epicuro - portador de cálculo renal e que conhecia o sofrimento - tentou dar uma explicação para ele, com frases de efeito, mas jamais atingiu a profundidade que Cristo nos revela com sua Paixão e Morte (e Ressurreição logo após)."

Dávio Antonio Prado Zarzana Júnior - 10/6/2008

"Apenas acrescento ao Wilson Silveira, no tema das células-tronco, que também quero a cura de todas as doenças, mas que seja utilizado para isto o meio idôneo que não destrua outras vidas. Se a nossa dor pessoal servir de mola propulsora para a possibilidade de abrirmos mão dos valores fundamentais do ser humano, como a própria vida humana em geral, algo está errado: é aí que precisamos da ajuda divina, pois o homem não consegue resolver tudo sozinho. 'Vinde a Mim, todos vós que estais aflitos e cansados sob o fardo, e Eu vos aliviarei', disse Jesus. É aqui que entra a fé. É aqui que entra a oração: Senhor, aumenta a minha fé. E vale para todos nós."

Dávio Antonio Prado Zarzana Júnior - 10/6/2008

"Caro dr. Silveira. Sob o tema, muitas vezes abordado pelo senhor na sombra de uma angústia verdadeira - sabêmo-lo agora- mantive uma breve troca de idéias com um membro do conselho editorial de um grande jornal paulista. Transcrevo trechos do um dos meus e-mails: '...nos parcos neurônios dos aborígenes as coisas só fazem sentido se tudo for reduzido a um 'Fla x Flu' ou a um 'Coríntia X Porco'. A Igreja Católica, por princípios e pressupostos que lhe são próprios e peculiares, tomou posição. Logo, trêfegos pensadores e adjacentes, derivaram a coisa para laicismo X religião de Estado. E dá-lhe exorcismos contra o que chamavam de 'obscurantismo', exumações apalermadas de Giordano Bruno, de Galileu Galilei. Ou o uso pornográfico de qualquer ignorância ou meia verdade que possa servir-lhes de munição na busca de ares de 'mudernos' e de progressistas... Em seu âmago a coisa a decidir era muito clara. Complexa era a sustentação de uma posição tal a carência de elementos objetivos para tanto. Para mim a coisa estava alguns - muitos - passos adiante. Se o destino dos embriões é o descarte - tout court, o lixo - pois jamais irão desenvolver-se num Ser Humano, por que não poderão ser utilizados em pesquisas médicas que, potencialmente, podem ajudar milhares de seres humanos a livrar-se dos grilhões e sofrimento de doenças degenerativas sem cura? Atrevo-me a cometer uma heresia, mas aí vai: Cristo ofereceu sua vida, sacrificado, pela salvação do Homem. Poderia a morte e sacrifício desses embriões, pela esperança e alívio da dor e angústia humanas, um 'ato cristão'?"

Alexandre de Macedo Marques - 10/6/2008

"Se me permite o nobre migalheiro Alexandre de Macedo Marques, não existe 'ato cristão' sem a participação da vontade livre. Os embriões humanos, assim como os fetos que são assassinados, não querem isso."

Dávio Antonio Prado Zarzana Júnior - 11/6/2008

"Caríssimo Zarzana Júnior,obrigado pela atenção dada a minha humilde e, certamente, imperfeita migalha-indagação. Tomo a liberdade de perguntar em que momento o embrião vai manifestar sua vontade de ser 'descartado', isto é, ser jogado no lixo. Reunirá pressupostos que permitam batizá-lo antes? Sou católico praticante e confesso minha completa incapacidade de formular um juízo que me livre da angústia diante da questão."

Alexandre de Macedo Marques - 11/6/2008

"Bom, caro amigo Alexandre de Macedo Marques, você entendeu minha mensagem, portanto. Os seres humanos em sua fase inicial de vida, desde a concepção, até mesmo algum tempo após o nascimento, não possuem o domínio da razão. E antes do nascimento, não manifestam sua vontade, por óbvio. Como católico praticante, você sabe que a Igreja defende a vida desde a concepção. Quem defende é justamente quem pode mover sua vontade nesta direção, tanto para defender outros, quanto para a legítima defesa. Os pequenos seres humanos não podem fazê-lo, mas nós podemos. Você pode, como católico praticante, encontrar o ensino da Igreja sobre ‘crianças mortas sem Batismo’ no Catecismo, nº 1261. Desde os tempos mais remotos, a Igreja sempre batizou as crianças - Catecismo nº 1252. De novo: nenhum ser humano quer a própria morte, a não ser para conscientemente salvar outra pessoa, como fez Cristo por nós. Para tanto, é necessária, portanto, a 'consciência'. Daí minha expressão irônica: os embriões não 'querem' isso, que percebi que você entendeu perfeitamente. O que não se pode é matar alguém inocente e indefeso para, pretensamente, salvar alguém. Isso não é correto. Devemos salvar todos e curá-los de suas enfermidades, aplicando meios corretos para isso, que não matem nenhum ser humano em nenhum estágio de sua vida. Essa é a defesa da Igreja."

Dávio Antonio Prado Zarzana Júnior - 11/6/2008

"Aí é que está, caros colegas. Quem é que resolve o que querem, afinal, as células, os embriões e os fetos? A sugestão do colega Alexandre de Macedo Marques não me pareceu tão herética como ele mesmo anunciou. Vejo, hoje, muita gente, que a par de falar em livre-arbítrio (vontade livre) afirma saber o que querem os embriões humanos, mesmo que a respeito não tenha havido nenhum pronunciamento. E, se não houve e, pelo jeito, nem vai haver, parece razoável aceitar que, a exemplo de Cristo, possam estar 'querendo' oferecer-se pela salvação, esperança e alívio da dor e angústias humanas. Quem sabe? Outro destino seria o descarte ou, egoisticamente, o lixo, sem servir a ninguém, nem mesmo a si próprios, e nem a aqueles que os defendem, o que não me parece, essa sim, uma solução caridosa para com o próximo ou... cristã. Além do mais, sem querer ser desrespeitoso para com os que são religiosos, mas depois de séculos de mortes em nome da religião, com milhões de pessoas que expressamente (por vontade livre), não desejavam, mas foram torturadas ou enviadas para a fogueira, e civilizações inteiras arrasadas por serem pagãs, inclusive com seus embriões que, na ocasião, não puderam dizer nada, realmente não me parece uma boa hora para esse tema. Isso, sem contar com o que consta do Antigo Testamento, com a destruição de todas as cidades ao redor de Gerara (1 milhão de mortos), ou no Dilúvio (30 milhões de mortos). Melhor seria para a religião que desse sua real contribuição para o bem-estar e o progresso da humanidade. Hoje, sem o medo da fogueira, a ciência pode, melhor do que regredir ou permanecer estagnada, progredir. E poderia, até, contar com o apoio da Igreja para facilitar seu caminho que, além do mais, é inexorável."

Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL - 12/6/2008

"A Igreja - instituição que exercia o poder secular na época da Inquisição e condenava à fogueira pessoas consideradas nocivas à ordem política e social estabelecida por seus representantes - hoje defende a vida, de acordo com os mais atuais conhecimentos científicos biológicos, mesmo assim e por isso mesmo, continua sendo criticada e condenada, como o faz o sr. Wilson Silveira, o qual infere saber até o que os embriões poderão ter decidido quanto a querer viver ou doar-se em sacrifício! Por que será que esse tipo de argumento ainda ocorre em nosso tempo, já que podemos nos considerar os seres mais civilizados em toda a história da humanidade?"

José Renato M. de Almeida - 12/6/2008

"Não sei se responde ao Sr. José Renato, mas o problema é exatamente a última frase de sua migalha. Nós não somos os seres mais civilizados em toda a história da humanidade, temos apenas essa impressão porque temos a tendência a achar que tudo o que vem depois é melhor. Junte isso com a ilusão de que somos mais civilizados só porque conseguimos construir um 'iPorcaria' da vida, e temos uma civilização com argumentos cada vez mais medonhos, mas que jura ser o primor da inteligência".

 

Daniel Silva - 13/6/2008

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