terça-feira, 20 de outubro de 2020

ISSN 1983-392X

Getúlio

de 22/8/2004 a 28/8/2004

"Se meu avô, René Thiollier, e meu pai, Alexandre Thiollier, vivos fossem, estariam a execrar esse oba-oba a favor do ditador Getúlio Vargas, pois viveram, ainda que em épocas distintas, todas as hipocrisias deste déspota. Ao enviar a judia Olga para as mãos dos nazistas, a história deste assassino não deveria encontrar eco nem mesmo em jornalecos marrons, mas infelizmente nossa terra tem memória curtíssima. De meu lado, prefiro ficar com as verdades que me foram contadas em casa, ao redor da mesa redonda do café da manhã, e não na suposta "meia verdade histórica" de alguns, que querem transformar, agora, esse tirano em nacionalista. Considerando as últimas declarações do nosso primeiro mandatário no Gabão e os futuros Conselhos da Justiça e de Jornalismo, daqui a 50 anos haverá vozes afirmando que o Presidente Lula era um nacionalista... Primeiro, desarma-se a população civil, mesmo com a movimentação guerrilheira do campo, patrocinada, entre outros, por recursos dos bancos governamentais. Adite-se, então, um tempero de restrição à livre imprensa e se controla, na seqüência, o Poder Judiciário pelo Conselhão de Justiça, indicando para os cargos representantes do comissariado do povo... Far-se-á, assim, rapidamente, mais um nacionalista, até porque o empresariado nacional já de há muito é refém do Estado... Há gente, muita gente, neste Brasil varonil, pensando que babado é bico..."

Alexandre Thiollier - escritório Thiollier Advogados - 25/8/2004

"A leitura do comentário feito pelo Dr. Alexandre Thiollier a propósito do aniversário da morte de Getúlio Vargas (Migalhas 995) soou-me algo impositiva, como um pensamento já assentado e absoluto que devêssemos aceitar, sobretudo quando o reduziu apenas a um "assassino". Claro que sua família deve ter razões de sobra para odiar o ex-presidente, assim como nós paulistas ainda guardamos grande mágoa pelo que foi imposto a São Paulo nos anos de ditadura. O que não podemos esquecer, no entanto, é que de todos os que ocuparam o cargo de presidente desta nossa ainda precária república me parece que Getúlio foi o que mais obras boas nos legou até agora. De “meias verdades” estaríamos falando se confirmássemos a malignidade da alma humana, tão bem sintetizada por Shakespeare, quando colocou na voz de seu Marco Antonio, a propósito do assassinato de César, a célebre frase: "o mal que os homens fazem sobrevivem a eles, o bem é sempre enterrado com seus ossos"."

Léia A. Silveira Beraldo - advogada em São Paulo - 26/8/2004

"Com relação à migalha "Getúlio", escrita pelo colega Alexandre Thiollier e publicado na edição do dia 25 (Migalhas 995), concordo com ele em gênero, número e grau, assinando embaixo sua manifestação. Não é de hoje, mas desde que comecei a entender o mundo, que jamais fui capaz de entender esse culto à personalidade, em favor do mencionado ditador, que não teve em toda sua vida o mínimo escrúpulo, agindo sempre a favor de seus próprios interesses e pela permanência no poder. Foi "liberal" em 1930, "fascista" em 1937, "socialista" em 1945..... sempre, porém, com as aspas ou o prefixo "pseudo", antes de qualquer adjetivo. O caso de Olga Benario, citado pelo colega, é apenas um dos muitos: e o que faziam o infame Filinto Muller e sua polícia política? as torturas? o tratamento dispensado aos opositores, aos estudantes? Realmente, além da memória curtíssima dos brasileiros, pobre do país que precisa de um sujeito desses como herói! Por mim, há muito deveria estar na lata de lixo da História!"

Pedro Yannoulis - 26/8/2004

"Quero parabenizar o advogado Alexandre Thioller pela coragem em desmistificar a imagem do sr. Getúlio Vargas em seu mais recente comentário. Parabéns também ao Migalhas em publicá-lo, quando o que se vê são loas e mais loas ao " pai dos pobres"."

Ednardo Souza Melo - 27/8/2004

"Caros amigos. É de ficar pasmado com  a pérola gerada pela colega advogada Léia A. Silveira, no Migalhas 996 a saber: "...Getúlio foi o que mais obras boas nos legou até agora..." Não sei se foi por brincadeira ou foi mesmo seriamente que  tal colocação foi formulada, posto que a colega, talvez por desconhecer um pouco de história, opinou acerca de um ditador a quem as manobras interesseiras ocultou muitos dos crimes praticados, cujas supostas "obras boas" não se mostram como lavanderias para crimes.  Pensando dessa forma vejo que uma nova figura existe no nosso bestialógico político, ou seja, a síndrome de estocolmo política, pois não se mostra crível que um ditador ainda, em pleno século XXI, seduza pessoas, inclusive, profissionais do direito que, no mínimo teriam que manter uma postura mais sóbria, ante os fatos da história. Stalin, Pol Pot, Fidel etc. Então como seriam julgados pela colega? É justamente esse relativismo moral que foi imposto ao Brasil que está nos levando à breca! Minhas condolências."

Rodolfo Hazelman Cunha - advogado - 27/8/2004

"A migalheira Léia A. Silveira Beraldo afirma (Migalhas 995) que a leitura de meu comentário sobre o ditador Getúlio Vargas soou-lhe de forma impositiva, como um pensamento absoluto. Pois bem, minha cara, a sua leitura está absolutamente correta, e merece nota dez! Primeiro, esclareço-lhe que minha família não tem razão alguma diferente daquelas de todos os verdadeiros paulistas para considerar esse ditador algo tão execrável quanto qualquer outro, seja  Hittler, Stalin, Mussoline, Mao, Fidel, ou aquele do Gabão, amigo do Presidente Lula, etc... Não me comove o projeto econômico do ditador Getúlio, da mesma maneira que não me emociona nenhum resultado positivo da ditadura militar, encerrada com a constituinte dita cidadã de 1988. Este tal de Vargas (várzeas alagadiças, pântano, etc.) teve apenas projetos de poder, pouco importando se o pêndulo ideológico estivesse à direita ou à esquerda. Percorreu do fascismo ao socialismo sempre assassinando, torturando. Desculpe-me a franqueza, mas ninguém faz nenhum bem a alguém quando, para atingir seus objetivos, mata e tortura, ou fere de morte a liberdade. É "quase" o caso do tal de Bush, ou não? E, cá entre nós, se o bem que você diz ter esse ditador feito aos brasileiros estiver enterrado junto com os ossos dele, ótimo, e que feda no inferno, bem ao lado de todos restos dos déspotas deste planeta. Para não dizerem que não falei de "nacionalismo", lembro a "lição" de Trotski: "Primeiro, o partido substitui a classe operária (leia-se, Partido dos Trabalhadores). Depois, o comitê central substitui o partido (leia-se, núcleo duro). E, por fim, o ditador substitui o comitê central (leia-se, o amigo daquele ditador africano)"."

Alexandre Thiollier - escritório Thiollier Advogados - 27/8/2004

"Caros, peço licença para entrar neste debate didático sobre o getulismo. Sim, getulismo, porque não se pode confundir a figura política do ditador com a política getulista que influenciou e influencia os destinos do país até hoje. Mal comparando, é como os que vivem apregoando a morte de Marx. Marx morreu, mas o marxismo está vivo, independente de concordarmos com ele ou não. No caso do getulismo, independe de gostarmos ou não. É uma realidade. Os anos 50 foram tumultuados por golpes, sempre contra o que se chamou de getulismo que, por vezes, virou sinônimo de nacionalismo. A redentora de 1964, atrasada por 10 anos, foi contra o getulismo grosseiramente confundido com os comunistas, agora nas figuras de Jango e Brizola. As manobras do regime militar, apoiadas por juristas ditos eminentes e saudosos (isso sim é relativismo moral), foram para afastar o "comunismo" e, principalmente, o fantasma do getulismo na figura de Goulart e Brizola. Sugiro que se leia a excelente obra em quatro volumes, até agora, do Gaspari. Mas, voltando a Vargas: é claro que foi um ditador, mas fruto das circunstâncias do seu tempo, que teve o mérito de criar as bases da modernização do país, enterrando os aristocratas da política do "café com leite". Não se trata de "valoração moral" reconhecermos os benefícios para o país e seu povo, trata-se de respeitar os fatos. Parafraseando Marx, o getulismo é o fantasma que ronda a cabeça, primeiro dos golpistas, depois dos neoliberais e agora dos emergentes recém saídos da esquerda da aristocracia operária. Quanto a "revolução de 1932", é assunto que não dá para discutir em termos emocionais, pois os interesses envolvidos nesta luta estavam léguas de distância do povo, buscando sim a restauração do poder perdido com a queda da carcomida república velha. Cordialmente,"

Armando R. Silva do Prado - 27/8/2004

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