Cigarro

2/8/2008
Wilson Silveira - CRUZEIRO/NEWMARC PROPRIEDADE INTELECTUAL

"Ao colega Alexandre de Macedo Marques recomendo o cachimbo, com seus fumos maravilhosos, e seu odor inconfundível, aprazível até a quem não fuma. Já charutos, confesso, nunca fumei. Não faz meu gênero. Acho muito forte. Inclusive o cheiro, que não são todos os que gostam. Ao colega Prisco, recomendo temperança, não a das Ligas da Temperança, daquelas senhoras que de temperança não tinham nada. Mas, na verdade, sou do tempo em que um cavalheiro tirava um cigarro da cigarreira e perguntava, educadamente, à senhora presente, se o fumo incomodava. E a senhora respondia, educadamente, que não. Tudo com muita educação. E temperança. Naqueles dias em que ser educado com o próximo era importante. Em que as tabelas de pressão alta e de colesterol não eram manipuladas para vender mais remédios, alcançando até as crianças, Tempos em que não era tudo que provocava câncer. Em que uma cuspida resolvia um machucado. Que comer gordura não provocava obesidade. Que leite era leite, e era de vaca. Em que todos fumavam, e não morriam de câncer. Os fetos nasciam saudáveis, como eu ou você. Em que se bebia e se saia guiando, normalmente, sem essa horrorosa patrulha. Em que se podia fazer amor e, no máximo, pegar uma alegra gonorréia, que uma dose única solucionava. Hoje, lendo os jornais, vejo que tenho que ler menos e comer mais tomates, já que os tomates caíram de preço e os livros estão mais caros. As hortaliças caíram e a carne também, mas só na última semana. O que será da próxima? Poderei ler? Ou comer hortaliças? E as salsichas, a quantas andam? Isso é vida? Os funcionários públicos tiveram aumentos acima da inflação. E os aposentados? Continuarão a ir buscar, de bermudas, o leite e o pão, na padaria da esquina, evitando o coco dos cachorros da vizinhança? E reclamando de que suas aposentadorias não são aumentadas da mesma maneira? E isso é vida? Melhor um cigarro, um charuto, uma cigarrilha (recomendo as HAV-A-TAMPA, de baunilha ou chocolate), com um bom conhaque, desses que nenhuma aposentadoria cobre, em casa, no recesso do lar, degustando com calma, muita calma. Afinal, são poucos os prazeres nesta vida..."

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