quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

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Salão Cultural da Faap foi destaque no Estadão

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segunda-feira, 26 de setembro de 2005

 
Destaque
 
O Salão Cultural da Faap foi destaque no Caderno 2 d'O Estado de S. Paulo de sábado (24/9). A Fundação Armando Alvares Penteado apóia e também sedia a exposição 700 anos de Arte Italiana Obras-Primas da Calábria. Confira abaixo na íntegra a matéria.
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700 anos de arte italiana

 

Da Calábria, região ao sul da Itália formada por cinco províncias, chegaram ao Brasil muitos imigrantes, trazendo seus costumes, sua culinária, sua língua. Agora, de forma abrangente, aporta aqui a arte dos calabreses - por meio de obras produzidas desde o século 14 no país de Botticelli, Michelangelo e Leonardo Da Vinci. Amanhã para convidados e terça para o público, será inaugurada em São Paulo, no Salão Cultural da Faap, a mostra 700 Anos de Arte Italiana - Obras-Primas da Calábria, com 108 obras recolhidas especialmente para a grande exposição.

 

Como conta o curador Giorgio Leone, é a primeira vez que alguns mestres da Calábria são colocados lado a lado. É também a primeira vez que temos aqui a oportunidade de conhecer, por meio de um espectro de tão longo período (do século 14 ao século 20), a arte de uma região específica. Ou melhor: na mostra não há somente obras de artistas da Calábria - ou da corte de Nápoles, daquala região fez parte durante anos -,como também de artistas nascidos em outras regiões,mas cujos trabalhos foram feitos para coleções calabresas. O correto é dizer, então, que se trata de abordar não somente a "produção" local como o "gosto" local em épocas diferentes.

 

 

É uma bela exposição que já de cara se abre com a escultura de mármore de um grande mestre, Pietro Bernini (1562-1629). Mas há ainda a presença dos pintores Luca Giordano (1634-1705), Mattia Pretti (1613-1699), Andrea Cefaly (1827-1907) e Francesco Jerace (1854- 1937) - seu anjo cravejado de pedras preciosas encerra a mostra. Obras-Primas da Calábria é um projeto que vem sendo realizado há mais de dois anos, especificamente para o público brasileiro. Suas mais de cem pinturas, esculturas e peças são provenientes de museus, coleções particulares e, claro, igrejas - "a Igreja sempre foi rica e adquiriu as melhores obras", diz Giorgio Leone, que assina a curadoria com Rosella Vodrett e teve assessoria do historiador brasileiro Luiz Marques. Assim, é claro que os temas sacros predominam. Apenas na última sala,com obras dos séculos 19 e 20, surgem outros assuntos - há paisagens, quadros políticos e retratos do cotidiano calabrês.

 

 

Uma aula de mestres sobre a produção e o gosto dos calabreses

 

Pinturas e esculturas do século 14 ao 20 estão dispostas em ordem cronológica, facilitando a compreensão da história

 

É uma aula sobre arte italiana. Os 1.200 metros quadrados expositivos do Salão Cultural da Faap foram divididos em três grandes salas para abrigar a mostra Obras-Primas da Calábria, projeto idealizado pelo Museu do Céu Aberto e realizado com apoio do Instituto Italiano de Cultura. Já que são 700 anos de arte italiana, o percurso escolhido pelos curadores Giorgio Leone e Rosella Vodrett para contar essa extensa história foi o cronológico, maneira de apresentar as obras de forma mais didática.No primeiro espaço estão as obras do século 14 ou dos trezentos, mas recebem o público também esculturas sacras de prata e obras de dois mestres importantes de outra época: Bernini e Ippolito Borghese com sua Madonna in Gloria, óleo sobre tela do século 17.

 

São somente os primeiros chamarizes do rico patrimônio. Na mesma sala há, por exemplo, um afresco de um anônimo datado dos anos 1300 e originário de Cosenza. A obra representa Santa Caterina d'Alessandria e carrega os traços da tradição bizantina, que persistiu na Calábria por boa parte desse período, como diz Leone. À frente do afresco está uma Madonna esculpida porque entre os séculos 14 e 15 ocorre a passagem da representação bidimensional para o tridimensional -o corpo representado com volume-,uma experiência ainda iminente para os calabreses. Nesse sentido, há ainda as esculturas douradas feitas com base na técnica do estufamento e da policromiadas vestimentas, influência do domínio espanhol na região (até o século 14, a Calábria e Nápoles pertenciam ao Reino de Aragão e depois, até cerca de 1860, a região fazia parte do vice-reino de Espanha). A segunda sala é a de mais peso. Compreendendo os séculos 16 e17, abriga predominantemente pintura e tem como carros-chefes, nas paredes laterais, as obras de MattiaPreti,"o grande pintor da Calábria", e Luca Giordano, diferente por ser ligado à Escola de Veneza e professor de Gabrielle de Sabato e Nicola Malinconico, presentes no mesmo espaço.

 

 

Nesse segmento há quadros influenciados pelo Barroco pós Caravaggio, que pode ser percebido no uso do claro-escuro de Battistello Caracciolo. Chamam a atenção também os retratos de Jusepe de Ribera que representam pessoas humildes são tão reais que podemos perceber até mesmo as unhas sujas de um retratado, como destaca Leone. Giovanni Rica, um desconhecido artista, está presente com pintura de São Francisco de Paula, o santo calabrês. Outro destaque é a natureza-morta com ostras de Giuseppe Recco, um dos mais importantes do gênero. Até esse momento não se pode dizer que havia um estilo próprio da Calábria, as obras tinham sempre a forte marca de produções de artistas de outras localidades. Isso acontece até o século 18.

 

Mas, na terceira sala, com peças dos séculos seguintes, predomina o estilo calabrês.Nesse período, os temas deixam de ser exclusivamente religiosos e o tamanho dos quadros diminui, conseqüência do advento de um outro tipo de mercado de arte, dominado por compradores que não eram os proprietários de palácios.

 

Um dos fundadores do estilo calabrês, como afirma o curador, é Andréa Cefaly."Ele estudou em Nápoles, mas voltou para a Calábria e fundou uma escola", conta Giorgio Leone. Cefaly dedicou-se a temas mais políticos e um destaque é a tela Progresso na América, sobre a imigração e o sonho de uma vida melhor no novo continente - sugerida por uma bandeira dos EUA no centro da composição. Há ainda menções na obra à industrialização e até um padre caído representando "o fim da repressão". Dos alunos de Cefaly há belas paisagens e retratos de calabreses em atividades cotidianas.

 

Serviço

 

Obras- Primas da Calábria. Faap. Rua Alagoas, 903, Prédio 1, 3662-7198. Grátis. 10h/20h (sáb. dom. e fer., 13h/17h). Até 13/11. Abertura amanhã (25), 17h, para convidados. Para o público, abertura na terça (27).

 

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Fonte: Estado de S. Paulo de sábado (24/9)

 

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Por: Redação do Migalhas

Atualizado em: 26/9/2005 10:58