segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

MIGALHAS DE PESO

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O Girassol

Em envolvente crônica, o escritor e juiz Federal do Ceará nos presenteia com o crescimento de um pé de girassol e mostra como a flor amarela impressionou um grupo de pessoas.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Em um terreno baldio, em meio a restos de material de construção e muito mato, nasceu um pé de girassol.

Não se sabe se a semente foi lançada ali deliberadamente por alguém, se chegou trazida pelo vento ou se veio junto com os restos da refeição de uma calopsita. O certo é que a semente brotou, a planta cresceu e, em uma ensolarada manhã, uma bela flor amarela desabrochou, erguendo-se bem acima do mato rasteiro.

Antes que a flor surgisse, ninguém havia percebido a planta crescer até quase um metro e meio de altura. Talvez por isso as pessoas se mostrassem admiradas e surpresas com a presença do girassol naquele lugar improvável.

A mulher que morava em frente ao terreno baldio foi a primeira a ver a novidade, e ficou mais tempo que o de costume debruçada na janela do quarto, no andar de cima de sua casa dúplex. Um homem que passeava com seu cachorro ficou alguns minutos parado, simplesmente olhando para o girassol. Outra mulher, que levava o filho à escola, quase se irritou com os puxões que garoto dava em seu braço, tentando chamar a sua atenção para a flor. Antes, ele somente havia visto outras daquela espécie na Internet e em um livro de ciências. Ao perceber do que se tratava, a mãe se acalmou.

E assim foi o começo do dia naquela rua, até que cada um foi cuidar dos seus afazeres e o belo girassol ficou sozinho em seu terreno baldio.

Somente mais tarde, em um momento no qual não havia ninguém na rua, apareceu uma jovem senhora. Estava vestida com roupas que normalmente se usam em academias de ginástica e tinha os cabelos presos por uma faixa de tecido. Ela também parecia atraída pelo girassol, mas, ao invés de ficar olhando de longe, como os outros, caminhou com dificuldade pelo piso acidentado do terreno baldio, aproximou-se da planta e, com uma tesourinha de cortar unhas, rompeu o talo e retirou a flor. Depois foi para casa sorrindo, segurando em uma das mãos o seu troféu.

Minutos depois, o menino que havia dado puxões no braço da mãe passou novamente por ali, voltando da escola, e percorreu com os olhos cada centímetro do terreno baldio. No entanto, viu apenas o mato e restos de material de construção.

P.S.: Após esse episódio, o menino acabou por convencer a mãe a plantar girassóis em seu próprio quintal, mas, durante meses, cada vez que nascia uma flor, ele ficava todo o tempo que podia vigiando-a. Dizia à mãe que essas flores misteriosas podem se soltar da planta e voar em direção ao sol quando ninguém está olhando.

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* Marcos Mairton é escritor, compositor e Juiz Federal em Quixadá/CE






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Atualizado em: 9/5/2012 14:50

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