sexta-feira, 30 de outubro de 2020

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Sim, nós somos macacos!

Mirian Gomes Canavarro Batista

Vivenciamos nos dias atuais sinais claros de nossa natureza pura, instintiva, animal, despertada pelo caótico ambiente social que vivemos.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Particularmente sempre consumi banana, sendo minha fruta favorita. Uma fonte de potássio reconhecida entre os atletas e um remédio natural contra câimbras. Seria minha essência falando mais alto?

Nas últimas semanas fomos imersos numa discussão quase antropológica sobre nossa origem evolucionista. Tudo em razão dos atos racistas sofridos por alguns atletas. Entre idas e vindas, discussões, manifestações e tudo mais que a nova ordem social clama nas ruas e nas redes sociais, ficou o pensamento sobre nossa origem e até onde a aceitação da teoria da evolução justificaria tudo que vivemos atualmente.

Como nos ensinou Claude Lévi-Strauss "o homem é um ser biológico ao mesmo tempo que um indivíduo social". Na sua obra Natureza e Cultura o filósofo traça uma discussão sobre nossa natureza e a influência cultural. Poderíamos reagir de forma natural (como nossos antepassados primatas) sem influência do meio?

Sem querer duvidar de tudo que já foi estudado e defendido, num paralelo apenas idealista de uma cidadã que se incomoda com tudo que tem ocorrido, a resposta seria sim!

Apesar da teoria de Darwin nunca ter afirmado que viemos dos macacos e sim de uma mesma origem primata - afinal os macacos ainda estão aí. Vivenciamos nos dias atuais sinais claros de nossa natureza pura, instintiva, animal, despertada pelo caótico ambiente social que vivemos.

Voltamos aos tempos das cavernas onde usávamos a força física e nossas armas arcaicas na luta pela sobrevivência e pelo domínio do território. Diferentemente, hoje as armas são mais letais, não exige sequer um atributo físico para manejá-las, estamos inertes, viramos caça de nossa própria espécie. Não fugimos de lobos, leões, crocodilos, serpentes e outros animais nocivos. Defendemo-nos de nosso instinto, de nossa natureza.

Cadê a evolução? Paramos? Voltamos ao dente por dente, olho por olho?

Analisando o meio e a sociedade poderíamos propor um interessante paralelo: Se nos tempos modernos, o ser social se insere num patamar evolutivo por meio da educação, a decadência do sistema educacional seria o resultado de tudo que vemos hoje? Sim, com certeza!

Basta para ratificar essa resposta um olhar atento às escolas públicas para nos deparamos com edificações abandonadas, salas de aulas sem estrutura, banheiros fétidos, móveis destruídos e nas grandes cidades, grades, muitas grades!

É nesse ambiente que nossas crianças e jovens estão inseridos para aprender, evoluir, mas podemos esperar um resultado positivo diante de lastimável estrutura?
Se não bastassem as dependências das escolas, sucateadas, ainda temos professores sem reconhecimento. Alguém já ouviu falar de motivação? Como influenciar crianças num meio tão desfavorável? Admiro quem o faça, pois assume um papel que foge ao de professor e se iguala a santidade.

Se compararmos algumas escolas públicas aos presídios federais da atualidade, estes últimos estão mil anos luz à frente em termos de estrutura, higiene e alimentação. É isso que desejamos às nossas crianças? Vamos continuar a investir nossa energia em discutir a maioridade penal, a superlotação carcerária, a violência brutal e animal das ruas?

Conforme nos lembra Pietro Perlingieri "Os princípios da solidariedade e da igualdade são instrumentos e resultados da atuação da dignidade social do cidadão. Uma das interpretações mais avançadas é aquela que define a noção de dignidade social como o instrumento que confere a cada um o direito ao 'respeito' inerente à qualidade de homem, assim como a pretensão de ser colocado em condições idôneas a exercer as aptidões pessoais, assumindo a posição a estas correspondentes"1

Claude Lévi-Strauss acredita que nem mesmo colocado em um meio totalmente adverso o ser humano retoma a sua natureza animal. Sinceramente, olhando tudo que tem sido noticiado nos últimos tempos, começo a pensar que, se estivesse vivo, o filósofo iria repensar - diante da constatação fática - que sua teoria tem exceções.
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1 PERLINGIERI, Pietro, Perfis do Direito Civil Constitucional, 2 ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, p.37
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* Mirian Gomes Canavarro Batista é advogada pós-graduada em Direito Empresarial pela FGV. Atualmente ocupa o cargo de diretora jurídica na Emparsanco S/A.

Atualizado em: 5/6/2014 11:06

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